quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Orla Digital, influência virtual

Políticas, transformações e sucesso eleitoral

O debate para a prefeitura do Rio de Janeiro trouxe à tona a dicotomia de pensamento: Pragmatismo VS Filosofia. Trabalharemos as estas duas vertentes para discutir o projeto “Orla Digital”.

E por que isto deve ser discutido para que a legenda se desenvolva?

1. Para saber em que medida se intervém na realidade;
2. Auxilia na formulação de melhores políticas públicas;
3. Serve de parâmetro para avaliarmos o lançamento de candidaturas e calcularmos o sucesso eleitoral – o PSB teve 36% de taxa de sucesso em candidaturas a Prefeituras em todo o Brasil.

Como não se possui uma ação sem um intento que a fundamente, comecemos pela elaboração de um projeto político.

Inclusão. Acesso. Palavras que em si carregam conceitos caros ao pensamento progressista. Entretanto, por si só não garantem o sucesso de uma ação, seja nos benefícios à população ou nos dividendos eleitorais.

A “era digital” justifica e sustenta o mundo globalizado. A imensa força do capital especulativo está baseada na abstração dos números e na velocidade das transações (compra/ venda de ações, transferência de capitais, etc) facilitadas pela internet.

A internet mostra-se a cada dia como uma ferramenta fundamental de pesquisa.

Neste contexto, é correto afirmar que: os excluídos digitais também o são dos mais diversos mecanismos de desenvolvimento da sociedade moderna. Fato que contribui para a manutenção de sua condição de subalternidade.

Enxergar a realidade desta maneira justifica gastos voltados para a inclusão digital de populações de baixa renda. Antes de discutir o escopo do projeto, o perfil dos moradores de Copacabana e o resultado das eleições de 2008, vejamos o lado do pragmático.

Imediatismo; Expectativa de ganhos – retorno; ausência de projeto político, tudo isto pode ser ligado a uma idéia objetiva de mundo. Normalmente, o imediatismo aparece mais ligado a questões como alimentação, resumido pela famosa frase: “Quem tem fome tem pressa”. Recolher os frutos do que foi semeado é também algo viável se tratando de administração pública e disputa eleitoral.

Por fim, uma visão completamente técnica pode estar voltada para a resolução imediata de uma demanda sem que isto esteja relacionado a um norte. Todas estas vertentes são criticadas pela falta de perspectiva de longo prazo e pouca alteração no status quo.

Visto isto apresentemos o projeto:
(fonte: http://olhardigital.uol.com.br/central_de_videos/video_wide.php?id_conteudo=5236) 16/03/08

Orla Digital – Praia de Copacabana recebe rede de acesso à internet wi-fi
Um dos principais cartões-postais do país entra definitivamente na era digital a partir de maio A Praia de Copacabana, que hospeda boa parte de turistas e visitantes em viagens de lazer ou a negócios, irá ganhar, a partir do mês de maio, uma rede de acesso à internet wi-fi. Isso permitirá aos usuários de computadores conectarem-se gratuitamente a uma rede de banda larga sem fio, bastando para tanto dispor de equipamento munido de dispositivo adequado para acessar redes wireless (sem fio). Batizado de Orla Digital, o programa foi lançado oficialmente no dia 3 de janeiro.

Governo investiu R$1 milhão na instalação de antenas Wifi que cobrirão a Av. Atlântica e a Nossa Senhora de Copacabana”
“A intenção do governo é cobrir todo o Rio nos próximo 18 meses. O orçamento estimando é de cerca de R$40 milhões”.
“O projeto é um dos 3 maiores do mundo. Só perde para os que estão sendo implantado na China e no México”.

Proposta muito interessante, visionária até. Seu início, porém, sem resultado eleitoral e real.

Copacabana possui:
* A população com mais anos de estudos do RJ
* Alta renda.
* Ampla rede de serviços

Em todos os dados pesquisados houve a relação: Maior renda/ Mais anos de estudos/ Maior acesso a internet

Sendo assim, a ação da Secretaria voltou-se para pessoas:
- Que já possuem amplo acesso a internet
- Mais escolarizadas
- Que não residem no RJ ou no Brasil
Ou seja, exceto aqueles que queiram economizar, aos turistas e aos hotéis os gastos não integrarão o cotidiano do indivíduo, logo, não serão incorporados ao “top of mind” na hora de destinar seu voto a representação partidária.


Demonstremos isto. A inauguração foi realizada em fevereiro. Em outubro as eleições produziram os seguintes resultados nas urnas de Copacabana:

Candidato do PSB mais votado no Bairro:

Dr. Carlos Eduardo - 1.252 votos (total: 27.297)

Candidata a Prefeita coligada com o PSB: 6.678 votos

Percentual do Prefeito apoiado pelo PSB no 2º turno:
Paes - 28% Gabeira - 71% (1º turno: Paes – 24% Gabeira - 53%)
(Fonte: TSE)

Os números mostram que:

- Embora tenha havido um gasto de mais de R$ 1 milhão, a legenda não se apresenta como alternativa daquela população.
- O Governo estadual recebeu pouquíssimo apoio do Bairro e da Região.

Outros pontos que ajudam a explicitar o problema:
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do RJ, somente sobre o mês de agosto de 2008 já traçam o panorama:
Turistas recebidos por bairro:
Copacabana: 67,75%_______Ipanema/ Leblon: 55,77%
Em Hotéis 4 estrelas: 70%
Motivação principal: Negócios 40,57%
Clientes do estado do RJ: 6,49%
Média de permanência: 3 dias_______Diária média: R$ 237,59
Pensar a correlação básica - intervenção na realidade/ melhoria das condições de vida/ sucesso eleitoral - ajuda a explicar o insucesso da legenda na região, seja de seus candidatos ou de sua base de apoio.

Em suma, a intervenção direta do “Orla Digital” na vida da população do Rio demonstrou-se inócua. O que resultou na ausência de resposta eleitoral da legenda e do governo. Além de beneficiar uma pequeníssima parcela de pessoas, esta em boa parte nem residente do Brasil.
Embora o projeto como um todo tenha expressão, seu início teve limitada visão.
O PSB tem que colher os frutos de suas políticas, mas isto baseado no reconhecimento por parte da população da boa administração pública realizada e dos projetos políticos defendidos.
O que se choca totalmente com políticas “para inglês ver”.
Uma legenda que se propõe a lançar candidatura à Presidência do Brasil em 2 anos não pode se dar ao luxo, em uma das 3 cidades mais importantes do país, de não construir sua marca de forma sólida e eficaz. Aliando curto e longo prazo dentro de um programa de idéias.

Sendo assim, pensar estrategicamente – sob o puro aspecto eleitoral ou pela evolução do projeto socialista – significa elencar melhor as prioridades.

Um comentário:

Avante PSB disse...

Enviado por Luiz Carlos Serafim:

Companheiros do Avante PSB

A análise que nos remete ao entendimento de "desperdício" de ação política na região sul da cidade, com a implantação do projeto Orla digital, traz no seu interior uma análise fechada para as questões político-eleitorais, desprezando a conjuntura política em que diversos membros de agremiações partidárias da esquerda optaram pela candidatura Gabeira, com o pressuposto do seu vínculo político-ideológico com as questões da luta da esquerda brasileira.

Pragmaticamente não se aufere a quantidade de votos nessa região com a proposta da Orla digital, mas assegura uma tática política de dizer a esses filiados que a preocupação, desenvolvida nas políticas públicas, passa pela compreensão de atendimento das áreas pobres e das áreas nobres da cidade.

Fechar uma análise sectária em relação aos projetos de inclusão é
acreditar que existe erros e acertos na política, quando na verdade a conjuntura aponta que estamos na época da sociedade das vítimas, como afirma o sociólogo frânces Guillaume Erner.

É minha contribuição para esse debate.
Luiz Carlos Serafim - movimento popular socialista.